Bah-sta de preconceito!

Sou um privilegiado: branco, de classe média, com formação superior e experiência profissional no exterior. Definitivamente, um privilegiado, que raramente sofre preconceitos.

Mesmo com todos esses privilégios, na semana passada eu sofri preconceito. Isso me fez refletir, imaginar o que outras pessoas, com menos privilégios, passam todos os dias. Por isso me sinto na obrigação de me expor. Dizer como me senti, na tentativa de ajudar aqueles que, infelizmente, sofrem preconceitos com muito mais frequência.

Eu sofri preconceito. Eu fiquei frustrado, abatido. Eu me senti pequeno. Pensei que talvez eu realmente eu não devesse estar ali, daquela forma, naquele momento. Logo, eu tentei esquecer. Pensei comigo: não foi nada, somente um pequeno mal-entendido.

Após algumas horas, depois de refletir, com mais tempo, mais calmo, eu decidi começar a escrever. Não por mim, e sim por todos que sofrem preconceito, mas não escrevem sobre isso.

Para início de conversa, eu adoro Porto Alegre. Eu fiquei emocionado ao ler a crônica do Arnaldo Jabor que descreve o seu sentimento ao ouvir o Hino Rio-grandense.

Eu me lembro de quando fui patrono de uma turma universitária gaúcha e ouvi o hino ecoando em um auditório repleto de gaúchos. Tenho muito orgulho de morar, trabalhar e ter filhos gaúchos. Mas não aceito que as nossas escolas sejam berço de preconceito.

Eu sou carioca e, depois do privilégio de fazer faculdade e mestrado na PUC-Rio, decidi me aventurar nas startups do Vale do Silício. Isso foi em 2000.

Vale do Silício. Experiência maravilhosa. Califórnia. Região linda, rica, repleta de pessoas bem-sucedidas e que se vestem casualmente.

Aliás, na minha área, de inovação e produtos digitais, a maioria das pessoas se veste casualmente. Diferente seria estar de terno e gravata caminhando pelos escritórios de empresas como Facebook, AirBnB, Amazon, Google, entre outras.

Em 2010, ajudei a trazer a empresa onde trabalho para o Brasil, a ThoughtWorks. Escolhi Porto Alegre, onde constituí família e desenvolvi uma grande admiração e respeito pelo povo gaúcho.

Hoje, tenho muito orgulho de a empresa ter crescido, com mais de quinhentos funcionários no Brasil. E tenho ainda mais orgulho de essa empresa ser exemplo de liderança feminina e apoiar ativamente a luta a favor da diversidade, de gênero, de raça, de pensamento.

Sim, lutamos contra o preconceito. E conversamos abertamente sobre isso. Por exemplo, atualmente, no lobby de entrada da empresa temos a caixa do preconceito, com papéis em duas cores com os seguintes textos: “Hoje sofri preconceito quando…” e “Hoje fui preconceituoso quando…”.

Semana passada, escrevi uma frase e adicionei à caixa do preconceito:

“Sofri preconceito quando fui buscar meu filho no colégio Farroupilha, vestido como nos vestimos aqui e com um capacete em mãos.”

Depositei na caixa e conversei na reunião semanal sobre os relatos de preconceito.

Trabalho como consultor. Quando viajo, escolho a roupa de acordo com o cliente que vou visitar; por vezes, mais formal. Mas, quando estou em Porto Alegre, me visto casualmente, conforme meus colegas de trabalho.

Na semana passada, eu trabalhei todos os dias de bermuda e camiseta. Era uma daqueles semanas bem quentes em Porto Alegre. E consegui levar e buscar o meu filho no colégio, todos os dias.

Mas, em um dia como outro qualquer, quando fui passar na roleta de entrada do colégio, um dos monitores que controlam a entrada e saída das crianças, me para e diz: “Aonde você vai?”

“Buscar meu filho”, eu respondo.

“De capacete não pode”, disse o funcionário do colégio.

“Não posso levar o capacete na mão?”, perguntei.

“Não, não pode.”

Deixei o capacete com ele e fui buscar meu filho. Depois, eu refleti sobre o ocorrido.

Pode ser por segurança”, pensei.

Mas, se fosse por segurança, por que não me pararam antes, das várias outras vezes em que estive no pátio do colégio com um capacete em mãos? Especialmente quando eu estava trabalhando de terno e gravata e entrava no colégio com um capacete nas mãos.

Segurança não deve ser, senão não teriam me deixado entrar inúmeras vezes, burlando tal regra tão visível. O colégio preza pela segurança das crianças e, se isso fosse uma regra de segurança, já teriam me avisado.

Preconceito.

Eu trabalhei como consultor, como agente de mudança em uma empresa gaúcha no ramo financeiro. Nessa época, eu usava terno e gravata diariamente, e frequentemente buscava o meu filho no colégio. Nunca fui parado de terno e gravata com o capacete em mãos.

Eu não vou tapar o sol com a peneira. Foi preconceito! Quem sente preconceito sabe. Você sabe o que sente. Eu sei o que senti.

Eu tenho três opções: (1) não fazer nada, aceitar e seguir em frente, já que isso não acontece comigo com tanta frequência; (2) me culpar pelo ocorrido — cortar o cabelo, colocar roupas mais formais para ir ao colégio buscar os meus filhos — ou ser um pai menos participativo e não frequentar o ambiente onde eu sou uma exceção; ou (3) refletir e escrever este texto, uma pequena façanha em direção a uma sociedade menos preconceituosa em que a escola, como uma das primeiras experiências de vida em sociedade, proporciona um ambiente de ensino sem preconceitos.

Eu optei pela opção 3. Adicionalmente, vou procurar a direção da Colégio Farroupilha para conversar sobre o ocorrido.

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