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Eu sou o Paulo Caroli e esse é o Podcast Mínimo Viável.

Eu queria conversar, como vocês sabem eu estou fazendo o Caminho de Santiago, estou há alguns dias eu e minha esposa nessa Caminhada e, refletindo sobre o assunto, eu andei pensando sobre transformação, transformação digital e várias transformações que cada um de nós e as nossas organizações anda fazendo e o Caminho de Santiago.

Primeiro, sobre o Caminho de Santiago. Santiago de Compostela é uma cidade na Galícia e o Caminho de Santiago são rotas bem antigas que têm. Algumas vem da França, outras de Portugal, têm várias rotas diferentes e todas terminam em Santiago de Compostela. Existem muitos peregrinos que decidem fazer o Caminho de Santiago. Essa é a primeira coisa que o Caminho, para cada peregrino, para cada pessoa, tem um propósito diferente. É algo dissimilar, que, sim, é um Caminho, ele é longo, é um percurso longo que você tem que planejar. Para ser considerado caminho, o mínimo eu acho que é 130 km, mas tem caminho que começa a mais de mil km.

Então, cada peregrino planeja por onde vai começar a sua caminhada e aí já iniciamos a nossa comparação com transformação digital.

Cada organização está começando de um ponto. A gente sabe onde a gente quer terminar, o que quer alcançar: uma empresa transformada digitalmente, mais organizada, melhorando o relacionamento entre as pessoas, tudo isso de bom que a gente vê lá de métodos ágeis, de transformação digital, de transformação organizacional. Você fala com qualquer empresa, com qualquer pessoa de qualquer empresa, a gente sabe onde a gente quer chegar: nirvana da transformação de uma empresa maravilhosa, trabalhando bem com diversidade, com autonomia dos times, com propósito, mas cada uma começa de um ponto diferente.

Essa é a realidade que não é minha de peregrino, é de vários outros peregrinos, cada um começou de um ponto distante e a gente, sim, precisa fazer algum planejamento, é normal isso. Só que é muito interessante, porque você planeja, mas é só quando você começa a caminhar que você vai sentir as dores de quem está caminhando e todos os desafios. Por mais que você planeje, assista vídeo de como caminhar, de como fazer para não ter bolha no pé. Pode né, é bom se preparar, é bom assistir vídeos, é bom fazer treinamentos e ler livros sobre transformação, mas você vai passar o que você vai passar e tem que começar a se transformar.

Não é só pagar um grande treinamento, ler aquele livro maravilhoso, que você vai dizer: oh, nos transformamos. Tweet This.

Não, tem um percurso a ser percorrido. Não adianta, também, que nem eu já fiz há um tempo atrás que eu fiz uma viagem para a Galícia e de carro cheguei do lado de Santiago de Compostela e vejo lá os peregrinos. Ai que legal, não, eu não estou transformado, eu só fiz o caminho, cheguei de carro até ali para ver como que é. Não adianta, também, você visitar. A gente usa o exemplo da empresa X ou Y, olha essa empresa transformada e você só olha a empresa que conquistou isso e diz: olha eu quero igual. Não, você tem que percorrer o seu percurso a sua caminhada, a sua organização tem que percorrer isso para sua transformação.

Um outro ponto interessante é o que isso faz com todo mundo, todos os peregrinos: ninguém caminha 100 km por dia. Todo os planos são os mesmos, são etapas. Etapas que a gente está falando é 20 km, 20 e poucos, talvez um dia que tem mais 30 km, um dia que tem menos é 15, mas esse é o que tem de comum em todo mundo. Ninguém vai fazer uma transformação de mil km em dois dias, em três dias. Não, vai levar tempo, é isso, a sua transformação vai levar tempo, são várias etapas. Você pode até planejar vou chegar em Santiago de Compostela, mas você planeja, eu começo nesta cidade depois eu vou para a outra a 20 km, depois para a outra e depois para a outra. Você pode até ser mais tradicional e falar: nossa eu vou marcar e reservar albergue e hotel em todas as cidades que eu for ou não, menos, tradicional e falar: não, quando eu chegar na cidade, eu acho albergue, porque tem muito albergue, tem muito local para ficar, porque sim, é um local que tem muita gente caminhando, muito peregrino.

E o que é muito interessante dessa comparação, eu gostei de fazer a comparação da transformação digital com o Caminho de Santiago é que caminhar a maioria de nós consegue, a maioria das empresas vai conseguir fazer essa transformação. E é uma caminhada, a gente sabe caminhar. Eu sei que é difícil, vai planejar um pouquinho, vai caminhar e vai sentir as dores, vai ter bolha no pé, talvez tenha que tomar um remédio de dor, porque o teu joelho vai começar a doer. Cada organização sabe onde é que vai doer primeiro. No meu caso é o joelho, qual é o seu joelho? Aonde no teu corpo vai doer essa caminhada? Mas é possível, você vai conseguir. Isso que é muito interessante, porque tem peregrino de 90 anos de idade e está caminhando, tem com 40, tem com 50, tem com 60, tem com 20, então é inclusiva essa caminhada.

Se você consegue caminhar, mesmo com as dificuldades, você vai conseguir.

O que é diferente de um triatlhon, um ironman, não, a transformação não é um triatlhon, vamos lá, vamos se preparar e começa a nadar todo dia e bicicleta, vamos lá é só para os fortes. Não, nós todos vamos conseguir transformar as nossas empresas, as nossas organizações. É uma caminhada. Sim, não é fácil, é difícil, mas com perseverança e tendo um propósito claro de onde você quer chegar e trabalhando ali, sprint a sprint, passo a passo, etapa a etapa, a gente vai conseguir chegar lá. E, claro, sempre prestando atenção de onde está doendo, o que eu tenho que fazer diferente.

Um ponto que é muito interessante é a conversa entre os peregrinos. Você está na caminhada, primeiro esse é um caminho que ele é seu, a velocidade é a sua, a mochila que você está carregando é sua, o ferramental que você colocou ou deixou de colocar é seu, que, aliás, se você bota muito ferramental, está pesado para carregar. Então, você tem que decidir qual o ferramental mínimo que eu preciso levar ali. Mas, se você levar de menos, também é perigoso. Então, eu vou me planejar um pouco, vou ler um livro antes, vou fazer um treinamento, deixa eu entender opa, tem cinco ferramentas, eu preciso dessas cinco? Eu consigo começar com uma? Você consegue, o importante é começar a caminhar também né.

Cuidado com aquela famosa em inglês ‘analysis paralysis’, que você paralisa analisando. Ai eu vou, pera aí, deixa eu assistir o vídeo, deixa eu planejar isso. Agora eu vou fazer um treinamento Scrum, agora um de Kanban, agora um de Lean Inception. Não, vai começar, começa na sua transformação e vai adicionando devagarinho, vai entendendo, vai pegando o feedback do seu corpo, do seu percurso, do que você está sentindo para decidir e agora, e a próxima etapa? Opa, vou comprar isso aqui e colocar esse band-aid no meu joelho, vou precisar botar esse gel aqui que diminui a dor muscular, que, aliás, é dica entre os peregrinos: a caminhada é sua, mas você não está sozinho, porque você conversa com outros peregrinos, você para em um café no meio do caminho e um vai falar: ah, eu vi que você está caminhando assim. Olha só, o meu joelho quando estava doendo tanto, eu caminhei um pouquinho de lado durante cinco minutos e melhorou, tenta isso. E você está ouvindo de um outro peregrino, alguém que vem caminhando também e está buscando o mesmo propósito.

Isso é muito interessante, a troca, essa é a nossa comunidade. A gente troca, somos pessoas cada uma de uma organização, mas está todo mundo caminhando. É importante essa troca, essa coisa da comunidade que a gente tem. E quando a gente está caminhando, que eu acho magnífico: sempre que um peregrino passa pelo outro ele fala ‘buen camino’, ‘buen camino’, não interessa a língua, não interessa o propósito, um olha pro outro e fala ‘buen camino’, um está indo mais rápido que o outro, um está mais lento, um está mancando, o outro está indo até de bicicleta, porque tem gente que vai de bicicleta. É isso a ferramenta daquela pessoa, daquele caminho é a bicicleta, mas para, olha no olho e fala ‘buen camino’. E no café ou no albergue quando se encontra tem uma troca: e aí, como é que está para você, como que foi?

Eu, no primeiro dia, no primeiro café em que eu parei, com o joelho doendo, veio uma pessoa do lado dizendo: olha eu tenho um remédio que me ajudou muito, você quer? É isso o que a gente tem na nossa comunidade, alguém vai parar e falar olha: eu li esse livro Lean Inception, fiz uma vez e adorei. Quer? Está aqui o livro, aqui uma dica, tenta isso.

Putz, quando eu trabalhei com história do usuário, eu senti essas dificuldades e eu tentei isso aqui e funcionou para mim. Ouve, conversa com os outros peregrinos. Isso é muito importante, essa troca, ela é baseada na experiência do que cada um de nós está vivendo e ela, provavelmente, é melhor do que você vai ler em um livro ou no treinamento, porque o peregrino caminhou naquele dia, naquela condição, naquele dia que estava chovendo e você também está na chuva e ele falou: olha agora está com lama, está derrapando, essa é a dica e essa é muito mais importante do que a dica você vai ter lido de um livro teórico de cinco anos atrás.

Ouça os outros peregrinos na caminhada da transformação, troque com a comunidade. Tweet This.

Assim como o mundo que a gente vive de transformação, não deve ter uma concorrência de empresa para empresa, de organização para organização, ou entre pessoas de uma mesma organização. Estão todos se transformando, cada um na sua velocidade, cada um com seu propósito, com seu objetivo e é uma comunidade, em que um ajuda o outro. dentro de uma mesma organização, uma pessoa quer ajudar a outra da mesma organização para se transformar.

Entre as organizações, uma organização pode compartilhar com a outra, ou que caminho fez para se tornar uma organização melhor para a sociedade. E pensando um pouco na caminhada, nas várias etapas que eu passei no Caminho de Santiago, nos primeiros dias, eu estava caminhando mais rápido, meu joelho não estava doendo tanto. E você passa por peregrinos que já estão caminhando mais devagar, que já estão com o joelho machucado e você olha para ele e você fala ‘buen camino’.

Eu acho que a importância de quem está passando, de quem está conseguindo ir mais rápido, quando passa por alguém que está tendo mais dificuldade, você olha no olho e fala ‘buen camino’, como é que está o seu joelho? Você quer? Eu tenho um gel para o joelho aqui. Você precisa de alguma coisa? Isso a gente faz como peregrino. Assim como quando eu estava caminhando mais lento e é interessante quando você está mais lento, pois você não passa ninguém. Você é passado por mais pessoas que estão caminhando mais rápido, mas cada um que passa, olha no teu olho e fala ‘buen camino’.

Eu falo: oh, eu estou vendo que você está mancando, como é que está o seu joelho? É assim que a gente deve fazer nas nossas empresas, nas nossas organizações: não é competição, é colaboração. Se eu que já transformei, que já passei por algumas coisas, e tenho uma comunidade em comum e eu me encontro com uma outra pessoa de uma outra organização, eu olho no olho e falo ‘buen camino’, como é que você está? Me parece que você está mais lento neste quesito, está doendo? Quer um spray? Quer uma dica?

É assim que a gente deve fazer nas nossas empresas, nas nossas organizações: não é competição, é colaboração. Tweet This.

É isso que a gente faz de pessoa para pessoa, de organização para organização. E isso é um grande aprendizado que eu também verifiquei nesse Caminho de Compostela: a colaboração dos peregrinos, cada um na sua busca e não no seu propósito, mas uma colaboração muito forte desse olhar no olho e falar ‘buen camino’ e compartilhar as dicas para ajudar na caminhada, porque todos querem que todos nós alcancemos, que todas as organizações se transformem e sejamos melhores para nossa sociedade.

Eu achava que era o Caminho de Santiago, que era um caminho, mas não é um caminho. É Caminho de Santiago e tem mais de um caminho, tem mais de um percurso. Tem vários percursos e o propósito, o resultado final é Santiago de Compostela, mas tem o caminho português, tem o caminho francês e com a transformação é a mesma coisa.

Às vezes, me perguntam: Caroli, o que eu faço para fazer a transformação?

Eu posso até te falar o que eu fiz quando liderei uma grande transformação. O meu caminho, eu tenho certeza, ele vai ser muito influenciado por workshops colaborativos, por retrospectivas, vamos vendo, vamos alinhando, vamos melhorando. Claro, eu sou de Lean Inception, eu sou de retrospectivas. Se você fala com uma outra pessoa, através de um estilo mais safe, ela vai dizer não, nós temos que organizar vários trends, vários projetos em paralelo, com quem você falar, talvez vai ter um caminho para essa transformação diferente e acho que não tem nada de errado nisso.

A gente tem que saber que têm alguns percursos, alguns caminhos e, especialmente, durante o Caminho de Santiago, você vai caminhando e, de tempo em tempo, tem uma seta amarela que mostra: Santiago está para aquela direção. E, às vezes, nesse mesmo percurso você chega numa bifurcação que tem duas setas amarelas: uma apontando para cada lado. Pra cá Santiago e pra cá Santiago. São caminhos alternativos e não tem nada de errado com esses dois caminhos alternativos, porque um está apontando oh, esse é mais assim, esse aqui segue aqui Scrum e aqui segue Kanban e talvez os dois te levem lá. Ou esse caminho aqui, esse aqui é Lean Inception: primeiro você vai alinhar as pessoas e decidir pelo Produto Mínimo Viável e seus incrementos. Esse outro aqui já vai direto ali e decide todas as histórias do usuário e depois conversa sobre o MVP. Os dois têm o mesmo resultado. A gente vai trabalhar com MVP, mas tem que decidir nessa bifurcação ou vou pela esquerda ou vou pela direita? Isso vai fazer parte do seu caminho.

Outro ponto que eu quero trazer é que a direção é mais importante que a velocidade.

Eu ouvi essa frase do meu amigo Rodrigo de Toledo e achei uma frase maravilhosa e repito ela sempre: direção é mais importante que a velocidade. O importante é que você vai chegar lá, se planejou, você tem as etapas e você vai chegar lá muito mais importante do que em que velocidade você vai chegar. Vou sair correndo, vou estourar meu joelho, minhas costas? Não, é um caminho, o percurso é longo.

E mais um ponto que eu aprendi. É a primeira vez que eu estou fazendo o Caminho de Santiago: você encontra pessoas que já fizeram cinco vezes, seis vezes. O caminho ele não é único, a transformação não é única. A gente está passando o momento, você acha, provavelmente você está vivendo, ai eu estou passando pela transformação digital dessa empresa. A gente vai seguir se transformando. Você vai passar por um período, vai chegar lá e depois de novo, vai ter um outro período, um outro percurso, uma outra caminhada.

A gente vai seguir se transformando, a gente nunca termina. A gente vai estar sempre se transformando. Tweet This.

Então, é isso. Como dizem por aqui: um ‘buen camino’.

 

Notas do episódio

 

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